Profissionais que sabem dois ou mais idiomas têm inúmeros benefícios, que vão além de conseguir um emprego
Texto: Pablo Furlanetto
Para se destacar no mercado de trabalho, é preciso cumprir algumas regras básicas. Uma delas,
falar no mínimo outro idioma, é pré-requisito. Porém,
novas pesquisas mostram que saber outra língua, além de ajudar no crescimento profissional,
pode contribuir para outros fatores que influenciarão na postura e sucesso do profissional.
Estudos indicam que bilíngues têm várias vantagens em relação aos monoglotas:
aprendem com mais facilidade, estão mais protegidos contra a senilidade
(envelhecimento), podem raciocinar de forma diferente em cada idioma,
entre outros benefícios. Entretanto, quem sabe apenas o seu idioma
materno não precisa se desesperar. De acordo com a professora da
Graduação em Letras e do
Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Unisinos,
Ana Maria Stahl Zilles, o monolíngue pode fazer uso de variedades de sua única língua e, assim, ter vantagens semelhantes às do bilíngue.
“Ao dizer isso, estou querendo trazer à tona um conceito chave, que é o de repertório linguístico”, explica.
Segundo
a docente, pessoas que dominam bem uma língua e aquelas que sabem
várias estão em vantagem, porque têm repertórios mais amplos e
complexos.
“As maiores diferenças que percebo em alunos com
repertórios linguísticos mais ricos é uma grande facilidade em tratarem
as questões de língua abstratamente, usando uma capacidade que se chama
metalinguística, fundamental para aprender a ler e escrever, e para
interpretar textos, por exemplo.”
Os benefícios para quem
sabe um ou mais idiomas não param por aí. Para Zilles, essas pessoas têm
mais facilidade de fazer operações mentais, como a abstração, a
comparação, a classificação, a interpretação, a análise de soluções, a
resolução de problemas, a crítica e a avaliação. Além de ter atitudes
mais flexíveis diante de situações diferentes do costume do país de
origem, em virtude de participarem de mundos culturais distintos. E isso
ajuda na hora de trabalhar e se adaptar, por exemplo, ao estilo das
multinacionais.
Porém, é preciso ter cuidado na hora de
aprender outra língua. A professora Ana Maria explica que para o
aprimoramento cognitivo vale o princípio de que quanto mais, melhor.
“Nosso potencial mental é enorme e pode ser ocupado com múltiplas tarefas, aprendizagens e relações.”
Mas a docente alerta que viver num fluxo constante de apreensão de
novos conhecimentos pode ter um impacto negativo, por não deixar espaço
para pensar, processar criticamente as informações, hierarquizá-las e
aprofundá-las.
Nem tudo é inglês
Na hora
de aprender outro idioma, as pessoas geralmente procuram apenas o
inglês, por entenderem que ele é o mais importante. Enganam-se. Hoje,
outras línguas são indispensáveis na hora de disputar uma vaga. Para
Zilles, três aspectos devem ser levados em conta quando o assunto é qual
o idioma mais importante: em primeiro lugar, que línguas a pessoa fala e
sua importância para o trabalho específico a ser executado; em segundo,
qual a posição delas em questão no mercado linguístico; e, por último,
qual o grau de proficiência em cada uma das línguas e em que domínios ou
áreas do conhecimento a pessoa pode ser bem sucedida.
A
professora destaca o inglês, espanhol e mandarim, em virtude do mercado,
como os três mais procurados. Mas, na região sul, outras línguas se
destacam na hora da obtenção de um emprego, como alemão, italiano e
japonês.
“E, considerando razões sócio-históricas, há outras que
deveriam fazer parte da nossa lista de possibilidades, como o francês,
por sua tradição cultural e sua importância em nossa própria história;
as línguas indígenas brasileiras, especialmente para áreas de trabalho
como antropologia, saúde e educação; e a língua brasileira de sinais,
cujo ensino é obrigatório nos cursos de licenciaturas”, finaliza.